These are the Purvis.
A criação é a base da vida de Ivo Purvis e Mécia Bento. Ele, Executive Creative Director. Ela, designer de comunicação. O trabalho criativo atravessa a forma como vivem em família e constroem espaço.
A casa surge como extensão desse universo. Entre estética e quotidiano, tudo acontece com naturalidade, também com as suas filhas, entre liberdade, jogo e presença.
Localização: Lisboa
Autor: Carla Cantante
Fotografia: Guilherme Costa
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COMO COMEÇOU A VOSSA HISTÓRIA COM ESTA CASA?
Ivo Começou no final de 2009, quando procurávamos uma casa para comprar. Na altura vivíamos numa casa arrendada muito gira, mas que deixou de acompanhar a vida que estávamos a construir. Tínhamos uma filha de um ano e percebemos que precisávamos de mais espaço mas sobretudo de um lugar que pudéssemos, finalmente, chamar nosso.
Durante quase dois anos visitámos várias casas. Entrávamos, imaginávamos possibilidades, tentávamos convencer-nos mas nenhuma nos enchia verdadeiramente as medidas. Faltava sempre qualquer coisa. Ou simplesmente aquela sensação difícil de explicar, mas fácil de reconhecer quando acontece: ainda não é isto.
A casa acabou por surgir a apenas 300 metros de onde vivíamos. Lembro-me perfeitamente de um dia em que passei de carro e vi uma placa de uma imobiliária onde nunca tinha estado. O recorte da fachada chamou-me imediatamente a atenção. Havia qualquer coisa nela que sugeria algo único e fez-me imaginar um terraço.
Liguei de imediato ao João Alegria, um grande amigo e arquiteto que já se tinha disponibilizado para nos ajudar num futuro projeto de recuperação. Fomos ver o imóvel no dia seguinte.
O QUE VOS FEZ APAIXONAR POR ESTE ESPAÇO?
Ivo O potencial para uma remodelação à nossa medida, mas sobretudo a sensação de que não estávamos perante uma casa comum. A organização em patamares diferentes criava uma dinâmica muito própria, como se cada nível tivesse a sua função
e espaço suficiente para todos, sem perder a individualidade de cada um.
O facto de ser um segundo andar, sem vizinhos por cima nem dos lados, trazia uma rara sensação de privacidade. A isso juntava-se uma excelente orientação solar, que enchia a casa de luz ao longo
do dia,
e uma vista que ainda hoje marca os nossos dias.
Tudo isto foi suficiente para percebermos que tínhamos encontrado
a nossa casa.
A primeira visita foi imediata, honesta e reveladora. Havia ali espaço para acrescentar, transformar e criar algo único, não fossemos nós “criadores” de profissão.
#Cada patamar conta uma história diferente. Juntos, desenham o cenário perfeito.
A luz, a privacidade e a vista conquistaram-os. Há casas que impressionam à primeira vista. Esta fê-los sentir em casa desde o primeiro momento.
QUANDO COMEÇARAM A IMAGINÁ-LA, O QUE QUERIAM CRIAR AQUI?
Ivo Desde o início, a ideia era clara: partilha. Uma casa de família, mas também um lugar generoso, preparado para receber. Um espaço onde amigos e família se sentissem imediatamente à vontade, onde fosse possível fazer barulho, rir alto, ouvir música ou simplesmente estar, sem a preocupação de incomodar.
Sempre olhámos para esta casa como um playground. Um lugar para ser vivido em plenitude, por nós e por quem entra. Música, jogos, movimento, arte nas paredes, festas improvisadas.
A casa tinha de permitir tudo isso sem preparação, sem aviso. Abrir a porta sempre foi natural. Gostamos de receber, de misturar pessoas, de criar momentos.
No fundo, queríamos um espaço onde a vida pudesse simplesmente acontecer. Uma celebração contínua, serena da vida, sem presa.
EXISTE ALGUM DETALHE OU CANTO DESTA CASA COM UM SIGNIFICADO ESPECIAL?
Ivo Há vários espaços de que gostamos especialmente, mas há um em particular que não é
o mais óbvio: o hall de entrada.
É ali que a casa se divide e começa a acontecer. Um ponto de decisão. À esquerda, a sala de jantar ligada à cozinha. À direita, os cinco degraus que conduzem à sala de estar, prolongada até ao terraço, com ligação aos quartos e à cozinha.
É nesse gesto de circulação que a casa ganha ritmo.
Mas o seu significado vai para lá da arquitetura. É também aqui que deixamos os sapatos, as máscaras, os objetos e os ruídos que não queremos transportar connosco. Funciona como uma antecâmara. Um espaço de transição entre o mundo exterior e aquilo
a que chamamos casa.
Um momento silencioso de passagem. A partir daqui, o tempo muda, o ritmo abranda, e a casa cumpre o seu papel: acolher e proteger.
O QUE ESTA CASA DIZ SOBRE QUEM VOCÊS SÃO?
Ivo Diz que somos pessoas que prezam a liberdade.
Em todas as suas formas: na arte, na música, nas conversas, na forma como ocupamos o espaço
e o partilhamos. Uma liberdade vivida, não declarada. Mas há também a importância do equilíbrio, talvez
o seu contraponto natural.
A verdadeira liberdade não é ausência de limites, mas a capacidade
de os escolher. Aqui convivem o ruído e o silêncio,
o movimento e a pausa, a improvisação e a intenção.
Quem entra percebe isso quase de imediato.
Não é um espaço rígido, nem caótico. É um lugar onde se pode ser quem se é, com respeito pelo outro e pelo momento.
No fundo, a casa é um reflexo direto de quem somos: aberta, imperfeita, viva e, guiada por uma ideia simples, mas exigente, de liberdade em equilíbrio.
#Visual arts runs in to their lives.
Vivida, não declarada, mas sempre
em equilíbrio, entre o ruído e o silêncio,
a intenção e o improviso.
DE QUE FORMA A CASA ACOMPANHA A VOSSA ROTINA E A VOSSA VIDA EM FAMÍLIA?
Ivo De forma muito orgânica. Não exige preparação especial nem grandes adaptações. Foi pensada para o previsível e para o inesperado, para o quotidiano e para o improviso.
Os rituais acontecem porque a vida acontece, não porque a casa os impõe. Pequenos hábitos, encontros espontâneos, silêncio quando é preciso, barulho quando apetece. Tudo cabe, sem esforço.
A casa não organiza a vida à sua volta, é ela que se molda à forma como vivemos. Isso dá-nos liberdade. Estar juntos ou em ritmos diferentes. Receber sem aviso, sem preparação.
A casa responde sempre.
É um espaço habituado à vida. Com muitas histórias já vividas e muitas ainda por acontecer.
Uma casa onde a vida acontece de forma natural, entre liberdade e equilíbrio, entre o ruído e o silêncio, entre a intenção e o improviso.
#A liberdade é o maior statement em tudo o que fazem.
ACREDITAM QUE OS ESPAÇOS INFLUENCIAM A FORMA COMO VIVEMOS?
Ivo Sem dúvida. Os espaços influenciam a forma como nos sentimos, mas também refletem quem somos e as histórias que carregamos. Numa casa renovada num prédio com mais de 100 anos, isso sente-se ainda mais.
Há memória, desgaste, imperfeição e alguma imprevisibilidade.
Quem escolhe uma casa assim tem de aceitar isso. Não são apenas problemas, fazem parte do carácter do espaço.Há uma relação constante: nós cuidamos da casa, e a casa também nos cuida a nós. Molda-nos no ritmo, na forma como estamos e como nos encontramos.
Uma casa num edifício histórico não é um objeto terminado. É um organismo vivo, que vai mudando connosco. E é nessa evolução imperfeita, mas honesta, que muitas vezes encontramos quem realmente somos.
Seres em constante renovação. Como as casas antigas.
Um lugar onde o quotidiano não é imposto, mas vivido, e onde cada dia acrescenta novas camadas a uma história que continua sempre em construção.
#1
Family stories